Diversas são as doenças que podem acometer a hipófise, também denominada como pituitária, uma das principais glândulas endócrinas. Antes de adentrarmos nas doenças que podem acometê-la, é necessário um breve resumo do seu funcionamento e importância para a manutenção do equilíbrio entre os hormônios produzidos e secretados pela mesma e o papel que estes exercem no organismo.

O que é hipófise

A hipófise é uma glândula endócrina, ou seja, é responsável pela produção e secreção de hormônios que exercem à distância suas funções em um órgão-alvo, seja no fígado, nas glândulas adrenais, nas gônadas (testículos e ovários), na tireóide ou em outros locais.

Onde está localizada a hipófise

A hipófise está localizada na base do cérebro, em uma região conhecida como sela túrcica, dividida em lobo anterior, também denominado adeno-hipófise, e lobo posterior, ou neuro-hipófise. Fisiologicamente, a hipófise é responsável pela produção e secreção dos seguintes hormônios: Luteinizante (LH), Folículo estimulante (FSH), Estimulante da Tireóide (TSH), Prolactina (PRL), Adrenocorticotrófico (ACTH), Hormônio do Crescimento (GH), Melanócito Estimulante (MSH), Ocitocina e o Hormônio Antidiurético (ADH), também conhecido como vasopressina.

Cada hormônio exerce uma função específica em outra glândula ou em um órgão-alvo, e sua deficiência ou produção excessiva podem ocasionar inúmeras doenças, bem como levar a diferentes alterações clínicas e/ou laboratoriais. Dentre as diversas doenças que podem acometer a hipófise, destacamos abaixo quatro, pela sua importância:

Hipopituitarismo

Disfunção de um ou mais, ou de todos os setores hipofisários (pan-hipopituitarismo), levando a uma redução na produção ou à não produção de hormônios que a glândula é responsável. Esta condição pode ser decorrente de doenças hereditárias, por mutações genéticas; anomalias estruturais; tumores, como adenomas hipofisários, levando à compressão e isquemia da glândula ou à compressão da haste hipofisária; craniofaringiomas; cistos da bolsa de Rathke; metástases de outros tumores; traumatismo crânio-encefálico (TCE); lesão vascular, como acidente vascular encefálico; doenças vasculares, como a apoplexia hipofisária e a Síndrome de Sheehan – esta decorrente de perda sanguínea durante o parto; doenças auto-imunes, vasculites, colagenoses; doenças infiltrativas, como sarcoidose, hemocromatose e hipofisite linfocítica; doenças infecciosas; radioterapia, para tratamento de adenomas hipofisários, tumores cerebrais e de pescoço; síndrome da sela vazia, dentre outras causas.

O quadro clínico de um paciente com hipopituitarismo é bastante variável e depende do setor hipofisário acometido, bem como da extensão e duração da deficiência hormonal presente. Quando há lesão do setor corticotrófico (ACTH), pode haver surgimento de sintomas, como fadiga, tontura, náuseas, vômitos, hipotensão postural, anorexia e perda de peso.

Se o setor gonadotrófico (LH e FSH) for acometido, sinais e sintomas podem ocorrer, como atraso puberal, hipogonadismo, com redução da libido, disfunção erétil, infertilidade, redução de massa muscular e pelos corporais, atrofia testicular, alterações menstruais (amenorréia ou oligomenorréia), ressecamento vaginal, atrofia das mamas e redução da densidade mineral óssea.

Na lesão do setor somatotrófico (GH), as possíveis manifestações são o retardo do crescimento, baixa estatura, fadiga, ganho de peso, redução de massa magra e da densidade mineral óssea, bem como aumento do risco cardiovascular. No acometimento do setor tireotrófico (TSH), pode haver retardo do crescimento, fadiga, constipação, intolerância ao frio, ressecamento da pele, sonolência, alteração de reflexos e lentificação na frequência de batimentos cardíacos (bradicardia). Por fim, na lesão do setor lactotrófico (prolactina), a manifestação é a ausência de lactação.

O tratamento é realizado através da adequada reposição do(s) hormônio(s) que o paciente apresente deficiência.

Hiperprolactinemia

Está ligada ao aumento dos níveis séricos da prolactina, sendo a alteração endócrina mais comum do eixo hipofisário, com predomínio no sexo feminino. Esta pode ser tanto fisiológica, como na gravidez e amamentação, estresse, sono, atividade sexual, exercício, manipulação das mamas, ou não fisiológica.

Dentre as não fisiológicas, a principal causa é o uso de medicamentos, incluindo antidepressivos, ansiolíticos da classe dos benzodiazepínicos, procinéticos como a metoclopramida, antipsicóticos, opiáceos, anti-hipertensivos, como metildopa e verapamil, uso de estrogênio, drogas ilícitas, como a cocaína, e outras classes de medicações.

Dentre as causas patológicas estão o prolactinoma (adenoma hipofisário mais comum), adenomas hipofisários mistos, craniofaringioma, síndrome da sela vazia, doenças infiltrativas, metástases e adenomas hipofisários não funcionantes, também denominados pseudoprolactinomas. Distúrbios da haste hipofisária por infecção, secção, tumores compressivos, bem como causas neurogênicas, por exemplo, lesões irritativas na parede torácica secundárias à herpes zoster, que também podem ocasionar elevação dos níveis da prolactina.

Além disso, doenças sistêmicas, como hipotireoidismo primário, síndrome dos ovários policísticos (SOP), insuficiência adrenal, doença renal crônica e cirrose hepática também podem levar a este quadro. Por último, a causa pode ser ainda idiopática, quando nenhum outro diagnóstico é confirmado, ou eventualmente por uma condição denominada macroprolactinemia, frequente em pacientes com níveis elevados da prolactina, porém assintomáticos.

O aumento persistente da prolactina pode ocasionar hipogonadismo, com redução da libido, disfunção erétil, infertilidade, além de oligomenorréia/amenorréia, anovulação, ginecomastia (principal manifestação em homens), e galactorréia, mais frequente em mulheres. Cefaléia, independentemente do tamanho do tumor hipofisário, alterações visuais e osteopenia ou osteoporose são outras alterações clínicas decorrentes da elevação persistente deste hormônio.

O tratamento da hiperprolactinemia depende, primariamente da confirmação dos níveis elevados deste hormônio, após adequada investigação e exclusão de possíveis causas fisiológicas e farmacológicas. Uma vez descartada tais causas e, dependendo dos níveis séricos da prolactina, procede-se, em seguida, à realização de ressonância magnética de sela turca, visando avaliar um adenoma hipofisário produtor de prolactina (prolactinoma), bem como outras possíveis alterações na região selar decorrentes deste tumor.

Dependendo dos níveis séricos da prolactina e do tamanho tumoral, inicia-se o tratamento medicamentoso com agonistas dopaminérgicos, preferencialmente a cabergolina, e monitora-se periodicamente os níveis deste hormônio e o tamanho tumoral. Importante ressaltar que o tratamento de escolha dos prolactinomas é medicamentoso.

A cirurgia e outras modalidades terapêuticas, como a radioterapia, são reservadas para casos específicos, como resistência ou intolerância medicamentosa, crescimento tumoral mesmo com tratamento medicamentoso adequado ou, ainda, em casos de apoplexia hipofisária (isquemia ou hemorragia súbita da hipófise), com efeitos compressivos e risco de herniações, neste caso configurando uma urgência cirúrgica.

Acromegalia

Doença sistêmica decorrente da produção em excesso do hormônio do crescimento (GH) e do fator de crescimento semelhante à insulina tipo I (IGF-I), em geral por um adenoma hipofisário secretor de GH (somatotropinoma), e mais raramente por secreção ectópica de GHRH. Quando ocorre uma hiperprodução antes do fechamento das epífises dos ossos longos, há um aumento na velocidade de crescimento e alta estatura, sendo neste caso a doença denominada gigantismo.

Ao contrário dos prolactinomas, não há um predomínio de sexo, e a doença é mais frequente entre os 40-50 anos. Além disso, costuma ter um caráter insidioso/silencioso e, em função disso, o diagnóstico é comumente realizado cerca de 8 a 10 anos após o aparecimento dos primeiros sinais e sintomas. Tal fato é extremamente relevante, pois a acromegalia pode ocasionar, além de lesões desfigurantes e debilitantes, complicações cardiovasculares, metabólicas, neoplásicas e respiratórias, com uma taxa de mortalidade 2 a 4 vezes maior do que indivíduos da população geral com mesmo sexo e idade.

Um diagnóstico precoce e, por conseguinte, um tratamento mais eficaz, poderiam, portanto, evitar a ocorrência ou minimizar estes desfechos. As manifestações clínicas da acromegalia são extremamente variáveis. Podem ocorrer alterações crânio-faciais, como aumento do volume do crânio, protrusão frontal, acentuação dos malares, espessamento dos lábios, aumento da língua (macroglossia), prognatismo, alterações de extremidades, como aumento das mãos e pés, com frequente aumento do número do calçado, síndrome do túnel do carpo, alterações articulares, como dor e deformidades articulares, aumento de órgãos, alterações de pele e fâneros, como hiperidrose, hirsutismo, acantose nigricans (escurecimento da pele, principalmente no pescoço e nas axilas), papilomas cutâneos e sintomas decorrentes da compressão tumoral, como cefaléia, alterações visuais, hipopituitarismo e aumento da prolactina.

O diagnóstico da acromegalia é realizado através da comprovação de níveis séricos elevados do GH e IGF-I. Em alguns procede-se à dosagem do GH durante a realização do teste oral de tolerância à glicose (TOTG). Uma vez confirmado laboratorialmente, procede-se à realização da ressonância magnética, preferencialmente, ou da tomografia computadorizada de sela túrcica, visando a identificação e caracterização do adenoma hipofisário.

O tratamento da acromegalia envolve tanto uso de medicações, quanto cirurgia. Dentre as medicações, as mais utilizadas são os análogos da somatostatina, como o octreotide e o lanreotide. Outras opções são os agonistas dopaminérgicos, preferencialmente a cabergolina e os antagonistas do receptor do GH (pegvisomanto). A terceira opção de tratamento é a radioterapia, porém esta é reservada para casos não passíveis de cura com a cirurgia e sem sucesso em controle da doença com medicações.

Síndrome de Cushing

A síndrome de Cushing consiste em um conjunto de anormalidades clínicas causadas por excesso de glicocorticóides. A principal e mais comum causa é a exógena, pelo uso indiscriminado de glicocorticóides, ao passo que a endógena é uma forma mais rara. O diagnóstico diferencial com outras doenças que cursem com quadro semelhante, como alcoolismo, SOP, obesidade, pseudo-cushing (encontrado em doenças psiquiátricas), é sempre importante, para direcionar um tratamento adequado.

A forma exógena, principal causa da síndrome, decorre do uso crônico de glicocorticóides, isto é, de prednisona em dose maior ou igual a 7,5 mg por dia (ou dose equivalente de outros corticóides). As formas endógenas são divididas em ACTH dependentes ou independentes. As independentes decorrem de distúrbios das glândulas adrenais, ao passo que as formas dependentes derivam de tumores hipofisários produtores de ACTH (Doença de Cushing), ou raramente de secreção ectópica de ACTH ou, ainda mais raro, de secreção ectópica de CRH, por outros tumores não hipofisários.

O quadro clínico da síndrome de Cushing é amplo e depende do grau e tempo de exposição aos corticóides. As manifestações clínicas incluem fácies em lua cheia, obesidade do tronco com deposição de gordura proeminente na região supraclavicular e na região cervical dorsal (giba de búfalo). Fraqueza muscular/miopatia proximal é outra manifestação comum. Diminuição da espessura da pele, propiciando a contusões, má cicatrização de feridas e facilidade para formar hematomas, além de estrias de aspecto violáceo acima de 1cm também são frequentes.

Outras possíveis alterações são hipertensão arterial, aumento de formação de cálculos renais, trombose venosa profunda ou tromboembolismo pulmonar, osteoporose, necrose da cabeça do fêmur, catarata, descolamento da retina, intolerância à glicose, aumento de infecções, distúrbios mentais, irregularidade menstrual, acne e hirsutismo.

O diagnóstico da síndrome de Cushing é dado primariamente com a confirmação de um estado de excesso de cortisol (hipercortisolismo), através da dosagem do cortisol no sangue, saliva ou urina, através de testes específicos. Uma vez confirmado, procede-se para a investigação da causa (etiologia) da síndrome, isto é, se ACTH dependente ou independente, novamente através de exames laboratoriais específicos, para finalmente proceder aos exames de imagem, seja a ressonância magnética de sela túrcica, tomografia computadorizada de abdome, ou outros exames de imagem menos frequentes na prática.

O tratamento da forma endógena da síndrome de Cushing envolve desde modalidades cirúrgicas, como a cirurgia transesfenoidal (tratamento de escolha para a doença de Cushing, para remoção do tumor hipofisário), a adrenalectomia, isto é, a retirada das glândulas adrenais (para pacientes com doença persistente após a cirurgia e radioterapia), a radioterapia e tratamentos farmacológicos, considerados de segunda escolha no tratamento desta síndrome, como o cetoconazol, pasireotide, mitotano e etomidato. Tais medicações são indicadas quando a causa da síndrome não foi definida, no preparo pré-operatório de pacientes com hipercortisolismo grave e enquanto se aguarda a resposta terapêutica à radioterapia, que pode demorar de 1 a 3 anos.

Em relação à síndrome de Cushing exógena, o tratamento consiste idealmente na suspensão dos corticóides. Como muitas vezes isso não é possível, pode-se tentar o uso de medicações conhecidas como poupadoras de corticóides, ou medidas para tentar minimizar os efeitos colaterais, como uso de glicocorticóides de ação mais curta, uso em dose única diária, corticóides tópicos em vez de sistêmicos e tratamento pelo menor tempo possível.

Tratamento das doenças hipofisárias

O acompanhamento com um endocrinologista é imprescindível para um diagnóstico e tratamento adequado dessas e outras doenças que podem afetar a hipófise. A Mealth Clinic conta com endocrinologistas capacitados para te atender. Agende sua consulta!

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